Ela passou muito tempo sendo endereço dos outros.
Casa sempre aberta, luz acesa, café quente e explicações prontas.
Quem chegava, ficava.
Quem pedia, recebia.
Mesmo quando ela estava cansada.
Mesmo quando chovia por dentro.
Um dia, sem alarde, ela percebeu que estava morando para fora.
Falava demais, corria demais, sentia demais, tudo para não perder ninguém.
Mas foi aí que começou a se perder de si.
Então, ela fez algo simples, quase invisível, ficou quieta.
Não foi silêncio de castigo.
Foi silêncio de escuta.
Parou de se explicar.
De implorar presença.
Parou de reagir no impulso.
E, curiosamente, o mundo não desabou.
Alguns estranharam.
Outros se aproximaram com mais cuidado.
E ela… ela respirou.
Descobriu que estar em casa não era solidão, era descanso.
Era sentar um pouco.
Mudar a bagunça de lugar e rir disso.
Cancelar planos sem culpa.
Era amar sem se abandonar.
Hoje, a casa continua sendo casa.
Mas agora tem porta.
Tem limite.
Tem paz.
Ela não desapareceu.
Ela se encontrou.
E descobriu que é bom estar em casa.
(Eu.)
- Rita Lourenço
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