sábado, 31 de janeiro de 2026

Renascendo

Em algum momento, olhei em volta e simplesmente parei. 

Fui me afastando, me silenciando e me acolhendo dentro de mim. O silêncio foi um amigo necessário, pois quanto menos barulho, mais eu me encontrava. 

Ao voltar para dentro, encontrei algumas caixas cheias de poeira. Quando as abri, havia lembranças, memórias, dores e cicatrizes. E, no meio de tudo, uma menina sentada, tentando entender como havia começado a sua trajetória.

Cada passo do caminho era como um espinho afiado, que machucava até sangrar. Mas, depois que todo o sangue escorria, surgia uma cicatriz limpa e firme, como se cada processo fosse uma cirurgia da alma. Permaneci por um bom tempo nesse porão dos meus sentimentos.

Após organizar aquela bagunça, olhei para trás e vi uma fila de novos sentimentos e memórias. Mas, em vez de deixá-los espalhados, aproveitei para organizá-los em caixas que já estavam abertas. Entre todas, precisei pegar uma nova, limpinha. Nela escrevi as palavras SONHOS / REALIZAÇÕES.

Depois de tudo isso, voltei para fora. E percebi estar renascendo. O mundo já não era tão barulhento, as pessoas já não eram as mesmas.

Mudei comportamentos, atitudes… E entendi que, às vezes, precisamos nos encontrar para conseguir seguir em frente.

- Rita Lourenço 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Casa que Aprendeu a Fechar a Porta

Ela passou muito tempo sendo endereço dos outros.

Casa sempre aberta, luz acesa, café quente e explicações prontas.

Quem chegava, ficava.

Quem pedia, recebia.

Mesmo quando ela estava cansada. 

Mesmo quando chovia por dentro.

Um dia, sem alarde, ela percebeu que estava morando para fora.

Falava demais, corria demais, sentia demais, tudo para não perder ninguém.

Mas foi aí que começou a se perder de si.

Então, ela fez algo simples, quase invisível, ficou quieta.

Não foi silêncio de castigo.

Foi silêncio de escuta.

Parou de se explicar.

De implorar presença.

Parou de reagir no impulso.

E, curiosamente, o mundo não desabou.

Alguns estranharam.

Outros se aproximaram com mais cuidado.

E ela… ela respirou.

Descobriu que estar em casa não era solidão, era descanso.

Era sentar um pouco.

Mudar a bagunça de lugar e rir disso.

Cancelar planos sem culpa.

Era amar sem se abandonar.

Hoje, a casa continua sendo casa.

Mas agora tem porta.

Tem limite.

Tem paz.

Ela não desapareceu.

Ela se encontrou.

E descobriu que é bom estar em casa.

(Eu.)

- Rita Lourenço

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Abraço das Máscaras

A gente se encontra todo dia. Dizemos nomes, trocamos acenos e perguntamos se está tudo bem. Mas, se pararmos para olhar bem nos olhos, percebemos um segredo, somos estranhos que sabem o nome um do outro.

O que nos une não é o que cativa, é o hábito. É o jeito de se vestir, o jeito de falar e as regras que todo mundo segue para não parecer "estranho". Criamos uma peça de teatro onde cada um já sabe o seu papel.

É triste e curioso ao mesmo tempo. Você pode estar em uma sala cheia, ouvindo vozes e risadas, e ainda assim sentir que ninguém ali realmente te viu. Estão vendo a sua roupa, o seu sorriso de educação, o seu trabalho... mas não veem você.

No fim das contas, vivemos cercados de gente, mas moramos sozinhos dentro de nós mesmos. O padrão social é como uma ponte que liga as calçadas, mas nunca chega a entrar dentro das casas. Ficamos ali, parados no portão, acenando para pessoas que nunca convidamos para entrar.

- Rita Lourenço 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Onde o Tempo Perde a Hora

Existem conversas que acontecem sem que uma única palavra seja dita. Foi assim com a gente. No meio do barulho do mundo, nossos olhos se encontraram e criaram um universo só nosso. Naquele instante, o tempo parou de contar as horas e passou a contar as batidas do coração.

Eu li em você um abismo de familiaridade. 

Foi um olhar que atravessou as minhas defesas e chegou onde ninguém mais tinha permissão para entrar. Ali, eu entendi que o amor de alma não se explica pela lógica, se sente pelo reconhecimento. É a paz de encontrar alguém que parece falar o mesmo idioma que o seu silêncio. No fim das contas, a gente não escolhe quem ama; a alma apenas reconhece quem ela sempre soube que pertenceria a nós.


- Rita Lourenço 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Lugar Onde as Palavras Não Chegam

Há sentimentos que não cabem na boca.

Eles são grandes demais para sílabas, delicados demais para frases, e profundos demais para qualquer explicação.

É por isso que eu abraço.

No abraço, não existe defesa.

Ele atravessa a pele, desarma o medo, silencia o caos.

O abraço é uma ponte invisível entre duas almas cansadas, um acordo sem promessas, um “eu estou aqui” dito sem voz.

Nem todos recebem o meu abraço.

Porque o verdadeiro abraço não se entrega ao acaso.

É escolha.

Ele reconhece.

Ele só acontece quando o coração encontra um lugar seguro para pousar.

Mas quem já recebeu… sabe.

Sabe que meu abraço carrega amor em forma de versos, esperança em forma de descanso e cura em forma de presença.

Porque quando as minhas palavras não conseguem mais sustentar o peso do sentir, o abraço assume o comando e o silêncio passa a falar.

- Rita Lourenço 

domingo, 4 de janeiro de 2026

As Coisas que Ninguém Viu

Houve um período em que eu não queria ser vista. 

Não porque eu tivesse medo do mundo, mas porque eu ainda estava aprendendo a me enxergar.

Carreguei culpas que não eram minhas.

Esperei respostas que nunca vieram.

Insisti em pessoas que já tinham partido sem se despedir.

Demorei para aceitar que algumas dores não pedem explicação.

Pedem apenas despedida.

Foi nesse espaço entre o que eu esperava e o que a vida me entregava que comecei a crescer.

Crescer é perder certas ilusões e ganhar uma paz estranha com isso.

Eu parei de me desculpar por sentir demais.

Entendi que minha sensibilidade não era fraqueza, era percepção.

Aos poucos, fui aprendendo a não me abandonar.

Mesmo quando tudo em mim queria fugir.

Ninguém viu esse processo.

Mas ele aconteceu.

E foi ali, no invisível, que eu me tornei alguém que nunca mais seria a mesma.


- Rita Lourenço 

Pequenos Sons, Grandes Aventuras

No mundo mágico das palavras de Ana Rosa, cada som é uma surpresa, cada frase, uma pequena aventura. 

Ela cria mundos com “pacanã”, constrói sentimentos com “apaixonamento” e dá vida a tudo com “desinchendo” e “cereto”. Palavras que dançam, inventam histórias e, aos poucos, encontram seu próprio caminho. 

E eu, maravilhada, só posso assistir, cada som, cada invenção, é uma magia que cresce com ela. 

- Rita Lourenço 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Antes de Saber o Nome da Força

Eu costumava achar que precisava entender tudo para continuar.

Hoje sei que a maioria das travessias acontece justamente quando a gente não entende nada.

Havia uma solidão que me acompanhava mesmo nos lugares cheios.

Uma solidão educada, silenciosa, que sentava ao meu lado e observava a vida passar.

Não era tristeza.

Era ausência de si.

Em algum momento, sem grandes cerimônias, eu voltei.

Voltei para dentro.

Comecei a ouvir meus próprios pensamentos como quem reencontra uma voz antiga.

E percebi que havia sobrevivido a versões de mim que já não existiam mais.

Isso também é renascimento.

Eu não me tornei invencível.

Tornei-me consciente.

Consciente de que não preciso ser forte o tempo inteiro.

Que às vezes, continuar é apenas respirar sem desistir de mim.

Se eu pudesse conversar com quem eu fui,

Não diria que tudo daria certo.

Diria apenas, fica.

Porque ficar foi a decisão que mudou tudo.


- Rita Lourenço